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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Opinião; filmes brasileiros têm maior bilheteria da história em 2010

A renda de bilheteria alcançada por produções cinematográficas brasileiras já soma cerca de R$ 180 milhões neste ano, superando, e muito, a marca recorde anterior de R$ 134 milhões, alcançada em 2003.
Em entrevista ao Portal Exame, o diretor de uma consultoria especializada no setor disse que em 2010 deve ser rompida pela primeira vez a barreira de um R$ 1 bilhão de arrecadação com filmes em geral e de R$ 200 milhões só com produções nacionais.

Nos embalos do capitão Nascimento

Até 28 de novembro, o filme “Tropa de Elite 2″ havia arrecadado R$ 96,9 milhões nas bilheterias. Até aquele dia, 10,3 milhões de pessoas assistiram o filme, que em breve pode se tornar a produção nacional mais vista de todos os tempos. O recordista é “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, de 1976, visto por 10,7 milhões de expectadores.
“Tropa de Elite 2″, bem como o segundo filme nacional mais visto no ano, “Nosso lar”, recorreram a fontes privadas de financiamento, o que é comum em Hollywood, mas algo que praticamente não existe no Brasil.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

OPINIÃO: forças do bem

A revoada de bandidos apavorados em fuga e a prisão de líderes acovardados podem ir além do espetáculo das imagens televisionadas? Podem servir para desfazer o retrato mitificado dessas criaturas? Estilhaçar o seu glamour de "vencedores", de endinheirados e poderosos? Tomara que sim. Traficantes "bem sucedidos" não podem continuar como referência positiva para adolescentes e crianças de comunidades sem outros modelos de vida "recompensadores".
Exemplar o cerco e a retomada de território no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Em vez de um confronto armado violento com vítimas inocentes, manobras planejadas com inteligência. Esforços conjuntos e apoio logístico para a missão traçada. Sem hipocrisia: uma situação de guerra é uma situação de guerra. O poder do estado enfrentou legitimamente o poder paralelo dos traficantes; guerreou com uma estratégia, com um código de ética e protegeu os civis. Era tempo.
O Complexo do Alemão não é uma favela num pedaço de encosta que se avista num único olhar. São muitas favelas interligadas que se estendem por cinco bairros suburbanos: Penha, Inhaúma, Olaria, Ramos e Bonsucesso. Bairros tradicionais e agradáveis antes do poder público permitir a ocupação desordenada de seus espaços vazios, deixando-os sem lei... Nem beira. Perderam até empresas e indústrias que partiram em retirada, abandonando seus galpões ao léu.
O casario clandestino se replicou na região. Ramificou-se criando um labirinto de ruelas e becos numa área ondulada, pontuada de elevações, encostas e grotas que passou a ser habitada por milhares de pessoas. Área que se transformou numa "cidade" intensamente povoada, mas desprovida de serviços urbanos: propícia para um reduto do tráfico de drogas.
No final de semana, a maior parte dos cariocas ficou de prontidão. Tensa. O Complexo do Alemão seria invadido por policiais civis, militares e federais; por fuzileiros navais e paraquedistas, numa operação com blindados das Forças Armadas. Quanto mais informação, mais angústia.
Por que tanta angústia? Porque havia o temor do Rio se transformar em palco de uma carnificina. E se a estratégia policial não desse certo? Se os bandidos, mesmo cercados, resistissem? Reagissem com alguma tática surpreendente?
Não dava para esquecer a "megaoperação" montada em junho de 2007, para invadir o mesmo Complexo do Alemão. Daquela vez houve a participação de policiais civis, militares e soldados da Força Nacional. O objetivo era atacar o refúgio, tomar o paiol de armas e munição, desarticular o centro de distribuição de drogas. A "megaoperação" terminou com 19 mortos e 13 pessoas feridas; entre elas sete vítimas de balas perdidas, como uma estudante que estava na escola e uma criança.
Desta vez, a maior diferença foi a aprovação popular entusiasmada com a superioridade de aparelhamento, que dava sentido à invasão para a retomada do território. Sobretudo os blindados da Marinha com suas "lagartas", os do Exército e os veículos do Bope. Havia a brigada paraquedista, os agentes das polícias Federal, Militar e Civil. Eram mais de dois mil homens em ação. E os moradores os ajudavam por meio do disque-denúncia e do jeito que podiam.
Para quem não costuma transitar pelas ruas do Rio, principalmente aquelas além dos limites da nobre Zona Sul, deve ser difícil entender a emoção de quem viu e sentiu as chamadas "forças do bem" triunfarem. Porém, é bastante simples. Quem mora longe do trabalho e batalha muito para criar os filhos, enxerga o "mal" naquilo que possa desgraçar sua família.

Ateneia Feijó é jornalista

OPINIÃO: Cadê o meu, pergunta o PMDB?

Presidente eleita, Dilma Rousseff começa a enfrentar sua maior dor de cabeça na montagem de sua equipe ministerial. Definir o espaço do PMDB em seu futuro governo. Os peemedebistas estão inquietos e desconfiados. Até aqui, ouviu mais falar em perdas do que em ganhos ministeriais. Sua fatia de poder cairia de seis para três pastas, confirmadas as articulações em curso da equipe dilmista.
Uma equação totalmente desfavorável para quem decidiu se aliar formalmente ao PT, indicar o vice da chapa e entregar um belo tempo de TV para Dilma Rousseff. Tanto que as queixas foram encaminhadas aos ouvidos da presidente eleita, que agendou reunião com seu vice, Michel Temer, presidente do PMDB e da Câmara dos Deputados.
O primeiro passo de Dilma para tentar acomodar o PMDB já foi dado. A presidente eleita sinaliza que pode deixar de lado seu desejo de colocar um nome de referência técnica, altamente qualificado, no Ministério da Saúde. Abandonaria a ideia de retirar a pasta do rateio político e a colocaria no seu comando um peemedebista ligado ao governador Sérgio Cabral (RJ).
Com isso, espera também baixar a temperatura interna dentro do próprio PMDB. Cabral resiste à nomeação de Moreira Franco para o Ministério das Cidades, uma indicação do vice Michel Temer. Pode mudar de posição se colocar na Saúde um nome ligado a ele. O mais falado é o de Sérgio Côrtes, seu secretário de Saúde.
Na equipe de transição, o que se diz é que, sobrevivendo ao sereno, Cortês tem tudo para emplacar. Traduzindo. Se não surgirem novas denúncias contra ele, que possam comprometer seu caminho, ele vira ministro da Saúde.
Por enquanto, o PMDB tem garantidas as pastas da Agricultura e Minas e Energia. Sonha e tem a promessa de comandar o Ministério das Cidades. Perderá o da Integração Nacional e o das Comunicações. Pode ficar com a da Saúde e manterá um que ele não contabiliza como seu, Defesa, com a manutenção de Nelson Jobim no posto.
Essa, porém, é a apenas a primeira das batalhas. A guerra vai prosseguir. Definidos os ministérios, há ainda toda distribuição das presidências e diretorias das principais estatais. O PMDB comanda uma boa parte do setor elétrico, manda na Transpetro, ocupa os Correios e tem na sua esfera de poder a Funasa, entre tantos outros cargos. Essa segunda batalha não ganha tanto destaque na mídia, mas é encarada pelos parlamentares, muitas vezes, como mais importante do que muito ministério pelo poder de fogo nas suas regiões.
Ou seja, o tempo é curto, falta apenas um mês para a posse de Dilma Rousseff, e ela tem pela frente muitos obstáculos para transpor.
Por Valdo Cruz

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

OPINIÃO: Bandeiras de guerra

As imagens das bandeiras do Brasil e do Rio de Janeiro hasteadas no alto do Complexo do Alemão simbolizavam, ontem, a vitória das forças policiais e militares sobre o tráfico naquele território. Sim. Mas eram, também, imagens para consumo da mídia -nacional e sobretudo a internacional.
Estão em jogo, neste momento, a competência do país para sediar a Copa de 2014 e a do Rio para receber a Olimpíada em 2016.
Na sexta, o "Le Monde" dizia: "Violência acirra as dúvidas sobre a capacidade de o Brasil organizar a Copa e os Jogos". O "The Guardian" foi mais direto: "O Brasil está tentando limpar a cidade à beira-mar antes da Copa e dos Jogos Olímpicos". Nada como um jornal britânico para nos dizer as coisas...
Com tudo o mais atrasado, a "limpeza à beira-mar" talvez seja a primeira obra de infraestrutura do país a fim de viabilizá-lo aos interesses bilionários envolvidos nos jogos esportivos globais.
Ninguém seria louco de dizer que se trata, desta vez, de uma limpeza cosmética, para inglês ver. Nunca as forças repressivas do Estado haviam enfrentado os traficantes com tanta determinação e força organizada. Organizada demais para quem foi apanhado de surpresa.
Há coisas ainda muito mal esclarecidas nisso tudo. O ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, disse anteontem que não havia nenhum indício de que a ordem para incendiar a cidade havia partido de dentro dos presídios de segurança máxima. Isso, no entanto, vem sendo repetido como fato inconteste.
Outro exemplo é o do suposto bilhetinho deixado como recado num dos ônibus incendiados: "Com UPP não há Olimpíada". Você acredita que um traficante escreveria isso?
Seria muito impatriótico perguntar a quem interessaria o pânico que se instalou no Rio? E estranhar que isso tenha ocorrido logo após as eleições? São dúvidas e desconfianças que fariam bem ao jornalismo que não deve favores a Sérgio Cabral e busca a verdade.

Por FERNANDO DE BARROS E SILVA

sábado, 20 de novembro de 2010

Opinião: Gordura e crescimento


Durante séculos, acreditamos que as cidades ficavam melhores à medida que aumentavam. Faz pouco tempo, percebemos a necessidade de reduzir as cidades, para viver melhor fora das megalópoles. Já é possível ser mais feliz em cidades menores.
Também durante séculos, acreditamos que as mulheres e os homens gordos eram mais saudáveis e mais ricos, carregando no corpo as provas da riqueza, as lembranças do prazer de comer e o fim da angústia da fome. Hoje, pelo contrário, o símbolo da riqueza e da beleza é a esbeltez. Nas sociedades modernas, são os pobres que engordam; os ricos gastam fortunas para emagrecer.
Gordura e superpopulação deixaram de ser sinais de riqueza inteligente, tanto para cidades quanto para pessoas. Mas as pessoas ainda resistem em perceber que a gordura que as rodeia, na forma de bens, consumidos ou de patrimônio, não é mais sinal de riqueza inteligente.
Porque essa riqueza já não cabe no mundo. As cidades vivem com suas aortas entupidas de automóveis, a atmosfera envenenada por dióxido de carbono. O organismo social padece das doenças que convenceram as pessoas a reduzirem suas cinturas. Também porque a segunda lei da termodinâmica deixa claro que nada pode crescer infinitamente em um mundo finito, com recursos naturais esgotáveis.
Depois de dois séculos de civilização industrial, principalmente na segunda metade do século XX, e muito mais com a globalização das últimas décadas, o PIB se transformou no símbolo do avanço civilizatório. Não importa se a compra vai endividar, comprometer o consumo de coisas mais essenciais à família, tirar as crianças de uma boa escola.
Não importa também se as horas perdidas no trânsito aumentam, ou se os engarrafamentos consomem tempo de vida ou provocam angústias e perdas. Como o consumo de combustível eleva o PIB, o engarrafamento passa a impressão de que a sociedade está mais rica, apesar da diminuição da felicidade geral.
Na medida em que percebemos o "desvalor" dos bens que engordam as cidades e as casas, tomamos consciência da possibilidade e da conveniência de aumentar o bem-estar graças ao decrescimento da produção de bens materiais e privados, com aumento na oferta de bens e serviços públicos e culturais. Diante da crise ecológica previsível e das insatisfações sociais já sentidas, surgiu, especialmente na Europa, um movimento pelo "decrescimento-feliz".
O conceito de decrescimento, atualmente debatido na Europa, substitui a ideia do crescimento ilimitado pela meta de uma sociedade melhor, que consume menos. É claro que esse decrescimento não se aplica linearmente em um mundo onde 20% consomem 85% dos recursos naturais. Em consequência, 80% da população vivem com menos do que o necessário.
Em 1980, a Editora Paz e Terra publicou um livro com o título "Desordem do progresso — O fim da era dos economistas", logo traduzido em Londres com o título "The End of Economics".
Há poucas semanas, o jornalista Clóvis Rossi publicou um artigo com o título "Felicidade Nacional Bruta", em que comenta o movimento mundial em busca de um novo indicador para o progresso. O IDH — Índice de Desenvolvimento Humano — já é levado a sério. O governo francês pediu e já recebeu uma proposta, elaborada por economistas, visando a um indicador que substitua o PIB.
É inevitável que a ideia de decrescimento-feliz ganhe adeptos. Que se espalhe e seja aceita tanto quanto a ideia de crescimento dominou o século XX. Antes disso, poderá ser recusada e ridicularizada, assim como a industrialização enfrentou fortes resistências do mercantilismo e da fisiocracia.
Mas prevaleceu, porque representava a força do progresso. O decrescimento-feliz vai prevalecer graças à fragilidade da atual concepção de progresso para enfrentar a força da natureza e as insatisfações existenciais. Não deve demorar muito para que o crescimento econômico passe a ser visto com o desconforto que hoje recai sobre a gordura do corpo e o tamanho das cidades.

Cristovam Buarque é Professor da Universidade de Brasília e Senador pelo PDT/DF

terça-feira, 9 de novembro de 2010

OPINIÃO: Chamem o Tiririca

Gilberto Dimenstein

Passamos toda a campanha ouvindo os candidatos prometerem baixar os impostos. As urnas fecharam e imediatamente vemos os governantes --PT e PSDB-- falarem na volta do imposto do cheque para financiar a saúde. Se é para fazer palhaçada, melhor chamar o Tiririca.
Estamos assistindo a arrecadação crescer a cada ano. Assim como estamos vendo os gastos governamentais crescerem, inchando a folha de pagamento. Só para tapar o buraco da aposentadoria dos funcionários públicos, que ganham muito mais do que a média do cidadão comum, são cerca de R$ 40 bilhões por ano --coincidentemente, o tamanho da CPMF. E quase quatro vezes a Bolsa Família.
O governo tem muito mais facilidade em tirar dinheiro do nosso bolso do que racionalizar seus gastos e combater desperdícios. Agora mesmo está andamento, no Congresso, projeto para subir os salários do Judiciário, que teriam impacto de R$ 8 bilhões. Depois, viria, por uma questão de isonomia, o Ministério Público mais R$ 8 bilhões.
Um dos males de baixa escolaridade brasileira é que o cidadão não faz ideia quanto paga de imposto nem como o dinheiro é gasto. Estamos pagando cada vez mais para bancar a elite do Brasil, composta de funcionários públicos.
Com isso, sobra menos dinheiro para os pobres, aqueles que usam o SUS.
Um imposto para a saúde seria plenamente justificável se soubéssemos que o governo está fazendo a sua parte, gastando melhor o que arrecada.

domingo, 7 de novembro de 2010

Opinião: a verdadeira cidadania

Cidadania no sentido de apego ao país, de patriotismo, somente ocorre em período de Copa do Mundo de futebol. Bandeiras são colocadas nas janelas, nas seções de trabalho e nos carros; todo tipo de brinde é fornecido com as cores do Brasil; as pessoas cantam até o Hino Nacional inteiro, mesmo que por puro fingimento, já que a maioria não conhece uma frase.
Outro momento em que esse exercício de cidadania ocorre é no período eleitoral. Não se trata de um sentimento nacionalista verdadeiro. A pieguice prevalece nesses dois momentos. Nas eleições, por interesse de candidatos com vistas a uma votação relevante, para evitar a discussão e mudança no atual sistema, especialmente evitar o voto facultativo. Pena que não seja assim, depois das eleições é que a verdadeira cidadania deveria ser exercida.
No exercício dos cargos os candidatos eleitos acertam contas com seus doadores mais expressivos, seja de forma direta, quando só se descobre depois dos mensalões, ou indireta por meio de licitações, como a do Metrô agora no final de 2010, cujo resultado a Folha anunciara os vencedores há seis meses, com exatidão de cem por cento.
Dilma Rousseff e José Serra protagonizaram uma das piores campanhas em trocas de acusações e promessas. Assim que tomam posse, os eleitos costumam repetir a frase de que imaginavam ser difícil, mas não tanto. E nesse momento seria a hora de aflorar a verdadeira cidadania e haver pressão à altura das promessas que ela fez. Mesmo que não servisse para tornar realidade o prometido, ao menos serviria para evitar promessas vazias e irrealizáveis apenas para obter votos.
Para transformar essa pressão em resultados são outros quinhentos. Se o cidadão passa e-mail, manda carta ou telefona todos vão parar na lata do lixo de um assistente da secretária do chefe executivo de um gabinete qualquer. Se for ao gabinete, não passa da antessala do mesmo assistente, quando consegue adentrar o prédio. 
O meio mais eficiente seriam as manifestações públicas, mas a mídia trata de rechaçá-lo, sob a alegação de que não se pode prejudicar terceiro, ou são tachados de bagunceiros. Além desses, cada um deveria exprimir sua posição com camisetas, com faixas, cartazes; as mesmas utilizadas no período de Copa do Mundo para manifestação de apoio ou criticar a seleção de futebol.
Somente no período de campanhas e eleições o eleitor é valorizado e o voto é enaltecido como ato supremo da cidadania. Trata-se de verdadeiro engodo aos menos esclarecidos. Primeiro, porque cidadania e voto obrigatório são antagônicos. E isso nem sequer é lembrado pelos principais interessados e pela mídia brasileira. Depois, porque o ato de votar, por si só, não ajuda em nada à democracia, pois a cidadania se exerce no dia a dia durante o exercício do mandato com apoio às ações que esteja de acordo, e principalmente se manifestando contrário às que desaprova, por todos os meios citados.
Cada gestão deveria eleger um problema a resolver. No governo Dilma, bastaria extinguir o analfabetismo absoluto, o que a pessoa não sabe assinar o nome, para no próximo acabar o formal, que significa não saber ler nem escrever. Embora pareça, não é pouco. Há 40 anos fracassam um programa atrás do outro e a alta taxa de analfabetismo continua inabalada.
As promessas feitas durante as campanhas deveriam ser reprisadas toda vez que o eleito colocasse uma desculpa pelo descumprimento. Isso talvez evitasse promessas vazias. Precisa ficar definitivamente arraigado na cabeça dos gestores públicos que a responsabilidade pelos subalternos é presumida. Cristalizar a ideia de que a presidenta tem a obrigação de abortar as Erenices da vida, mas se as parir, ela terá que saber ao menos quem é o pai. Caso a sociedade exerça essa força, aí se caracterizaria a verdadeira democracia que, definitivamente, está a anos luz de apertar um botão no dia da eleição.

Pedro Cardoso da Costa – Interlagos/SP
    Bel. Direito

Preconceito contra os nordestinos e a razão do medo

Por Mauro Santayana

É com amargura que somos obrigados a retomar o tema, mas o silêncio, nesse caso, é criminosa cumplicidade. Trata-se da estúpida e perigosa reação de jovens dos estados do Sul, sobretudo de São Paulo, contra os brasileiros do Nordeste, desta vez com relação aos resultados eleitorais. O racismo é abominável, ao não aceitar os seres humanos diferentes, mas é também incômodo ao revelar a profunda ignorância dos que o praticam. Todos os homens são iguais em sua essência, e a moderna biologia vai além: as diferenças entre os seres humanos e os demais mamíferos são insignificantes.

A vida é a aventura comum da matéria. Não conhecemos suas razões e provavelmente jamais as conheceremos. Os grandes aceleradores de partícula podem identificar o bóson de Higgs, em que, conforme a presunção de alguns físicos, Deus poderá ser encontrado. Mas, ainda que ali o encontrássemos, seria impossível com ele dialogar e conhecer as suas razões para criar o cosmo. Restará sempre a dúvida: por quê? Por que a vida, por que a morte, por que o ódio?

Como seres humanos, tivemos que lutar pela sobrevivência contra outros seres vivos, das feras pré-históricas aos vírus e bactérias identificados em nosso tempo, e contra seus vetores, como os ratos e os insetos. Como seres humanos, não temos sabido conviver uns com os outros, como provam as guerras, e o racismo – suprema manifestação da ignorância – não é só um sentimento dos homens primitivos, que sobrevive entre nós. É a exposição mais transparente da debilidade, do medo. Esses jovens de São Paulo e de outras cidades meridionais, no fundo, não desprezam os nordestinos. Temem, apenas, que eles os venham suplantar, o que já começa a ocorrer. O desempenho intelectual de moças e rapazes das universidades de Campina Grande, de Natal, de Recife – entre outras – está surpreendendo os observadores, principalmente no que se refere ao conhecimento científico.

As pessoas, quando aprendem a pensar, tornam-se poderosas – e riem dos preconceitos. Para aprender a pensar, basta duvidar das verdades tidas como absolutas. A única verdade absoluta é a morte. Temos que combater todos os racismos, mesmo quando eles se disfarçam na “defesa” da própria “raça”. Esse combate se inicia na constatação de que raça é substantivo abstrato. Não existem raças humanas. Houve, como confirma a ciência, durante a peregrinação da espécie, a partir da África, a adaptação dos seres humanos às condições próprias das latitudes, da alimentação, do clima, o que resultou na cor da pele e em outras alterações do corpo. Somos todos “afrodescendentes”, para fazer concessão a outra violação do bom-senso, que é o uso dos termos “politicamente corretos”. Se black is beautiful, por que rejeitar a palavra negro?

Mas, no caso dos nordestinos, não é o preconceito “racial” que atua. Eles são discriminados porque, em sua imensa maioria, são pobres. Sua pobreza secular é resultado de duas catástrofes: uma, natural, a da seca; outra, social, a da cruel opressão das oligarquias. Essas duas tragédias os tangeram à migração. Sendo-lhes negada a educação, viram-se, nos estados desenvolvidos, obrigados aos trabalhos mais penosos e mal remunerados. Da mesma forma que não há preconceito contra os negros ricos, tampouco há contra os nordestinos ricos; nem há no Nordeste mais mestiços do que no resto do Brasil. Ao contrário: numerosas de suas famílias descendem dos holandeses e franceses que ocuparam a região, e deixaram sua marca genética, na cor da pele, dos cabelos, dos olhos. O que eles temem é a ascensão dos pobres ao poder, nordestinos ou não, como é o caso de Lula.

É necessário impedir que a infecção se alastre. Ela deve ser cauterizada logo, pela ação rápida e severa da Justiça.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Morto três vezes, o PSDB procura um projeto de vida

Por Josias de Souza
Levado à cova uma trinca de vezes –2002, 2006 e 2010— o PSDB tornou-se uma legenda à procura de um projeto de vida.

FHC e Sérgio Guerra, presidente de honra e presidente executivo do partido, desejam antecipar a escolha do nome do próximo presidenciável tucano.

Em vez de aguardar até 2014, o candidato seria lançado em 2012, com dois anos de antecedência.

Espécie de bola da vez da legenda, Aécio Neves, grão-duque do tucanato mineiro, acha que o nome é relevante, mas enxerga uma prioridade mais urgente.

"Antes de ter um nome, temos que ter um projeto. Não podemos deixar novamente para o início do processo eleitoral a difusão das nossas ideias e propostas".

Um observador incauto poderia perguntar: Quer dizer que, se José Serra houvesse prevalecido sobre Dilma Rousseff, o PSDB iria ao governo sem projeto?

Eis uma das muitas razões que produziram a derrota de Serra: o tucanato não conseguiu pôr de pé uma proposta alternativa de país. Foi às urnas sem discurso.

Não se diga, contudo, que a campanha presidencial do PSDB foi inútil. Hoje, todo mundo sabe que Serra acredita em Deus e é contra o aborto.

CPMF, a saída fácil

Por Miriam Leitão

Esse filme nós já vimos.
Passada a eleição, o governo volta à carga para aprovar no Congresso o retorno do imposto do cheque. A velha CPMF ou uma contribuição substituta, já em tramitação, que é a CSS.
Tudo em nome de uma causa nobre, que é garantir mais recursos para a saúde. E agora com o reforço dos governadores eleitos, que engrossam o coro por mais recursos.
O presidente Lula nunca engoliu a derrubada da CPMF em 2007 pelo Senado e culpa até hoje a oposição por retirar "R$ 40 bilhões da saúde".
Na entrevista de quarta-feira, voltou ao tema, criando o mote para o discurso de ontem dos governadores do PSB, previamente articulado com Lula e a presidente eleita, Dilma Rousseff.
Que a saúde precisa de mais recursos, ninguém duvida. Que o sistema é deficitário, caótico em alguns aspectos, todos sabemos. Mas também é verdade que a CPMF não era inteiramente aplicada na saúde pelos governos, o atual e o anterior.
O imposto do cheque serviu para muitos fins: reforçar o orçamento da Previdência, pagar dívida e engordar o superávit primário.
Os gastos efetivos com serviços e ações de saúde equivaliam a 1,65% do PIB em 1997, quando a CPMF foi criada.
Em 2007, quando o imposto foi derrubado, estavam em 1,66% do PIB, e em 2009 subiram para 1,85% do PIB, graças à emenda 29, que criou um piso obrigatório para esses gastos. Piso que, na prática, virou teto, com imposto ou sem imposto.
Esse histórico, no mínimo, serve a uma reflexão. Será que o problema da saúde se resolve com a criação de mais imposto em um país com uma carga tributária de primeiro mundo e alguns serviços de terceiro?
No ano passado, o ministro José Temporão liderou uma articulação no Congresso em defesa da CSS. A contribuição chegou a ser aprovada na Câmara e agora depende só de um destaque, que teria de ser derrubado, mas o projeto do deputado Pepe Vargas (PT-RS) precisa retornar ao Senado e lá o governo só terá maioria ampla no ano que vem.
Se usar o rolo compressor de início de mandato, com a base que conquistou nas urnas, a presidente eleita tem boa chance de aprovar o imposto do cheque em 2011 e então teremos a reprise do filme que já assistimos: a saúde sendo usada como desculpa para o aumento da carga tributária já extorsiva.
Não seria mais coerente cumprir as promessas de campanha e negociar uma reforma nos tributos, mesmo que pontual, compensando o aumento da carga com medidas que estimulem o emprego, como a desoneração da folha de salários, por exemplo?
Ou medidas que desonerem os investimentos e as exportações?
Se vai pagar a conta, a sociedade teria, pelo menos, o retorno assegurado.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Clima de eleições 2012 em Iguatu é péssimo para todos


Por Alex Santana

É lamentável o que se observa após as eleições, este é sem dúvidas o momento para os vitoriosos agradecerem a todos que os apoiaram nesta jornada, mas também é o momento de refletir e começar a determinar quais ações que serão feitas para cumprir cada promessa realizada à população.
Em Iguatu a situação é um pouco diferente, a oposição conseguiu eleger a sua candidata Miriam Sobreira para o cargo de Deputada Estadual, e no momento em que conquista a possibilidade de oferecer benefícios para a população na Casa do Povo Cearense, observamos uma verdadeira demonstração do que o poder é capaz. Sem agradecimentos, sem discursos de projetos, sem apresentação de planejamentos de como irão cumprir com suas promessas feitas durante o pleito para a população. O marido da deputada eleita coloca em jornais os seguintes dizeres.

“Ex-deputado Marcelo Sobreira (secretário-adjunto) da Saúde Estadual, admite que sua esposa, dra. Miriam Sobreira, eleita deputada estadual (PSB) poderá realmente disputar “pra ganhar”, em 2012, a Prefeitura de Iguatu. Terá apoio do governador Cid Gomes.”
Antônio Viana – colunista do Jornal O Estado 

Bem amigos todos possuem o direito de fazer o que quiser, mas tais  pensamentos já em 2012 passam uma imagem para o povo de uma busca frenética pelo poder. Tudo tem o seu tempo, mas pelo jeito na mente do Secretário Adjunto de Saúde do Ceará, este é o momento de continuar com o clima eleitoral. Que sinceramente não faz bem a ninguém. Este é o momento para dizer ao povo o que pode e se deve esperar de uma Deputada na Assembléia Legislativa do Estado e não de continuar com uma obsessão por mais cargos e  mais atritos entre eleitores e facções políticas.

Falta maturidade política e pensar mais no que se pode fazer neste momento pelo nosso povo.    

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Opinião: para o povo ou com o povo ?

Por Carlos Chagas

Do primeiro pronunciamento de Dilma Rousseff depois de eleita fica uma dúvida: ela enfatizou  o sentido republicano e o compromisso democrático de sua eleição,  mas  ressaltou estar disposta a governar para todos.

Atenção na declaração: para todos,  não com todos.  Há uma diferença sutil que tanto os aliados quanto as oposições  começavam ontem mesmo a analisar.  Não que o PSDB, o DEM e penduricalhos esperassem  alguma participação no novo governo, sequer através de propostas e sugestões. Sabem estar naturalmente excluídos do poder nos próximos quatro anos, como nos últimos oito.

O problema aparece para o PMDB e demais partidos que se empenharam pela vitória da candidata. E até para alguns companheiros. A preposição  não admite discussões. Muita gente vai ficar de fora, como a partícula comprova. Ainda que todos os cidadãos  possam vir  a ser beneficiados pelos planos e programas da nova administração, conforme as boas intenções da presidente eleita, apenas alguns participarão da obra de governo.

Passa-se de imediato da teoria à prática. O PMDB não tem certeza de manter os seis ministérios que ocupa no governo Lula. Muito menos as centenas de diretorias de empresas estatais ou da administração direta. A tolerância do presidente Lula para com seus aliados poderá não se constituir na característica da sucessora,  inclusive porque falou duro quanto se referiu à meritocracia para o exercício das funções públicas, pautando as nomeações.

Michel Temer que se cuide, apesar de duas vezes citado  no discurso inicial de Dilma. Já  tendo sido gentilmente escanteado na campanha, nada indica que poderá entrar no gabinete presidencial com uma lista de peemedebistas propostos  para  ministérios e adjacências. Assim também o monte de papagaios de pirata flagrados atrás da nova presidente em suas primeiras horas de aparição vitoriosa.

Uma dedução pode ser tirada para os tempos que se aproximam: em muito difere do Lula a primeira mulher a exercer a chefia do Executivo. O país verá aposentadas as tiradas de humor duvidoso e de comparações futebolísticas em troca de raciocínios e de iniciativas diretas e ásperas.  A complacência cederá lugar à cobrança.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Opinião; Aécio Neves e a renovação do PSDB

Por Alex Santana
Agora é a vez de Aécio Neves que demonstra nos bastidores a oportunidade de encabeçar o PSDB para a oposição “com responsabilidade” fugindo da frieza paulista que mais uma vez sai perdendo nas eleições para presidente e pela terceira vez.
O mineiro terá dificuldades pela frente. O candidato derrotado José Serra já demonstrou que em 2014 pretende participar de um novo pleito, mas até lá o tucano mineiro deverá fazer o que sabe de melhor, que é dialogar com todos os tucanos do Brasil e conseguir o apoio necessário para uma candidatura em 2014.
Aécio Neves já percebeu que apenas a parceria com o DEM não é suficiente para uma base oposicionista. O mineiro irá apostar no desgaste que a Dilma Rousseff poderá ter com o grupo aliado que possui de vários partidos e neste momento conquistar siglas para sua base.
Mesmo sem estar no poder central o PSDB sai com uma grande vitória, governará para 47,5% do eleitorado nacional que comporta os oito estados comandados pelos governos tucanos. Destaque para a própria Minas Gerais e São Paulo que possuem os dois maiores colégios eleitorais.
Aécio Neves é sabedor também que o discurso que coloca FHC como o criador, iniciador, o pai do Plano Real e algo mais. Não cola mais. É um momento para o PSDB repensar nos seus valores e sair do pedestal que o separa dos demais partidos.
E sinceramente, após o término de mais uma eleição, os tucanos demonstram que na sua maioria são amigos de partido e que são na verdade, inimigos comportados. Este é um dos maiores fatores para mais uma derrota para presidente.     

OPINIÃO: Dilma lá, o motor da eleição

 Por José Roberto de Toledo

A eleição de Dilma Rousseff (PT) expressa o desejo do eleitor pela continuidade do atual governo. Com economia e consumo em alta, a maioria dos eleitores votou para não mudar. É também uma vitória rara na política brasileira: a de um projeto, e não a de uma pessoa física.
A nova presidente, ao contrário de seu antecessor, não é uma líder carismática com canal direto de comunicação com o eleitorado.
Apontada pessoalmente por Luiz Inácio Lula da Silva para sucedê-lo, foi eleita exclusivamente pela transfusão de votos do atual presidente.
O PT entrou de carona no processo. Embora tenha sido importante para consolidar suas chances eleitorais no início da campanha, o partido não participou do processo decisório sobre a candidatura de Dilma. Foi uma decisão solitária do presidente.
As pesquisas Ibope mostram que Lula conseguiu transformar 4 em cada 5 fãs de seu governo em eleitores de Dilma. São aqueles que avaliam a atual administração como “ótima”. Além disso, o presidente conseguiu transferir para sua candidata metade dos que acham seu governo “bom”.
O cruzamento das pesquisas de véspera e dos resultados da urna indica que cerca de um terço desses votos veio de beneficiados pelos programas assistenciais do governo federal, principalmente o Bolsa Família. Mas a maior parte de quem votou em Dilma não recebe nenhum tipo de bolsa ou auxílio.
Esses eleitores optaram por Dilma porque a economia, de modo geral, vai bem. É a expansão da renda, do emprego e, especialmente, do crédito que alavancou eleitoralmente a candidatura da petista em Estados onde o Bolsa Família importa menos, como no Rio de Janeiro.
Isso foi fundamental também para evitar que José Serra (PSDB) abrisse uma vantagem muito grande em São Paulo e no Sul do país. O tucano conseguiu 2 milhões de votos a mais do que a rival no maior colégio eleitoral do país, que ele governou até abril. Em compensação, Dilma abriu 10 milhões de votos no Nordeste, por exemplo.
O desejo de continuidade que elegeu Dilma foi responsável também pela eleição da maioria dos governadores, de oposição e da situação, que tentaram voltar ao cargo. Da mesma maneira, a taxa de reeleição dos deputados federais foi muito alta: 70%.
No final, o consumo e economia pesaram mais do que as questões morais e religiosas. Para ter governabildidade, Dilma precisará ser capaz de manter o bolso dos eleitores como estão: cheios.

domingo, 31 de outubro de 2010

Fernanda Torres: ‘Propaganda e marketing’ eleitoral

“Jamais compreendi o direcionamento populista do marketing de José Serra. No primeiro turno, levei um choque quando assisti a uma cena em que o candidato do PSDB se sentava no sofá de uma senhora singela para ouvi-la falar a respeito de um problema de saúde no olho.
‘Depois desse olho, a senhora perdeu o outro olho?’ Perguntava ele. A enferma, então, ameaçava chorar e Serra abraçava-a com dó, pedindo que não se emocionasse porque, senão, ele se emocionaria junto. Só faltou o violino cigano.
Um especialista em linguagem do corpo afirmou, logo no início do primeiro turno, que o tucano passava a ideia de que sabia do que estava falando, mas não se importava com o próximo. Talvez opiniões como essas tenham-no levado a gravar cenas tão lacrimosas.

Quando Marina deu o segundo turno de presente para a oposição, achei que o populismo seria deixado de lado em prol de uma mensagem mais adulta e objetiva.
Ledo engano.
Serra continuou exalando bondade enquanto abria seu programa de forma sensacionalista, demonizando Dilma e rebatendo com o mesmo dólar furado as acusações de entreguismo feitas ao governo FHC pelo PT.
O público percebe quando está sendo tratado como criança.
Há duas semanas, recebi por e-mail um depoimento contundente postado por Hélio Bicudo via internet. Nele, o bacharel em direito e fundador do PT chamava a atenção para os exageros partidários de Lula, para a ameaça à liberdade de expressão e pedia que a população, por meio de seu voto, se posicionasse contra um partido que coloca seus interesses acima dos da nação.
O time de Serra devia ter poupado o trabalho e transmitido as palavras de Bicudo no ar, em looping, no horário eleitoral.
A equipe de Dilma também fez a caveira dos tucanos, mostrou sua candidata visitando casebres, brincando com o cachorro e conversando com desamparados, mas sempre como pano de fundo.
O grande trunfo do programa do PT -além da luz caprichada, do custo superior e do auxílio luxuoso de Lula- foi uma entrevista extremamente bem produzida em que a candidata petista se dirigia a um arguidor oculto.

Editada de Dilma para a própria Dilma, a peça publicitária lhe dava tempo de exprimir suas ideias sem sofrer com o que parece ser uma dislexia verbal que apresenta em público, de pausar sem que parecesse branco, de não ser agressiva como exigem os debates nem sorridente ‘pede voto’.

A impressão de intimidade, criada com a longa conversa e os silêncios para reflexão, destacava a personalidade grave de Dilma e a ajudava a formar uma imagem de serenidade digna de um presidente.

Em um ano, a ex-ministra foi maternal, severa, irritável, boa, beata, vítima, algoz, seguiu o norte das pesquisas e, perseverante, enfrentou a via crucis eleitoral como poucas vezes se viu na história deste país.

Se as previsões se confirmarem nesta noite de domingo, depois de tantas metamorfoses ambulantes, talvez a própria Dilma descubra com o eleitorado quem é a mulher que hoje se torna presidente".

Extensão de Lula, Dilma sai da urna como incógnita

Por Josias de Souza

Nos dias que antecederam o primeiro turno, o comitê de Dilma Rousseff tomou uma decisão temerária: reduziu a presença de Lula na campanha. Concluiu-se que chegara a hora de mostrar que a candidata tinha luz própria. Sobreveio o segundo turno. E Lula foi devolvido ao primeiro plano.

 Coadjuvante da própria candidatura, Dilma chega ao final da campanha como uma incógnita. Um enigma que hipnotiza 55% dos votos, segundo o Datafolha. Na expedição eleitoral, ela encarnou Lula. Mimetizou-o no discurso e nos gestos. Elegendo-se, terá de reassumir o próprio corpo antes de assumir a Presidência.

 Cara amarrada, tecnocrata de mostruário, Dilma teve a fama de durona recoberta por densas camadas de marketing.  Fabricada por Lula, a candidata foi envernizada pelo jornalista João Santana. Atrás do marqueteiro, uma equipe de cerca de 180 pessoas.

 Nos comícios, uma fórmula imutável. Primeiro, falavam os candidatos ao Senado. Depois, o postulante ao governo do Estado. Dilma foi sempre a penúltima da fila. Reservaram-se os epílogos para Lula. Sob atmosfera apoteótica, o padrinho ofuscava a afilhada.

 Lula fez por Dilma mais do que fizera por si mesmo nas cinco campanhas em que correra o país como candidato. Nunca antes na história do país um presidente da República jogou-se tanto numa campanha como Lula. Virou cabo eleitoral com dois anos de antecedência.

 Impôs Dilma ao partido. Arrancou-a do gabinete. Levou-a ao meio-fio. Exibiu-a em comícios disfarçados de eventos oficiais. Pai do povo, converteu-a em mãe. Na noite deste sábado (30), Lula degustou o sucesso de sua criação: “Quando escolhi a Dilma, me chamavam de louco”, recordou.

 Deu-se num diálogo telefônico que se seguiu à divulgação, no 'Jornal Nacional', dos últimos números do Datafolha e do Ibope. “Eu estava certo”, jactou-se Lula. Patrono de uma candidatura improvável, Lula escorou sua decisão em três pilares: o instinto aguçado, a vontade incontida e a popularidade inaudita.

 A essa trinca de variáveis somou-se a mais bem estruturada campanha do PT na história das disputas eleitorais do partido. Afora as quase duas centenas de cabeças acomodadas na equipe de marketing, Dilma foi rodeada por cerca de 100 pessoas.

De secretários particulares a assessores de imprensa. De seguranças privados a uma trinca de agentes da Polícia Federal. De treinadora de mídia a fotógrafo. O cuidado, por extremado, estendeu-se dos sapatos aos fios de cabelo da candidata.

Cabeleireira pessoal de Dilma, Rose Paz cruzou o país como passageira invisível do Cessna Citation que serviu de meio de transporte à candidata. Na organização das viagens, o comitê importou o modelo da Presidência.

 Escalões avançados chegavam nas cidades antes de Dilma. Preparavam a logística dos deslocamentos, recolhiam dados e identificavam previamente os desconhecidos que cruzariam o caminho da candidata.
Dilma dispôs de uma multiplicidade de anteparos. Mas nenhum escudo igualou-se a Lula. Coube a ele a tarefa de se interpor entre a pupila e as encrencas. O cabo eleitoral comandou a infantaria.

 Defendeu Dilma dos ataques da oposição. Foi à TV para desarmar a armadilha aborto-religiosa. Segurou as rédeas do PMDB. No comitê de Dilma, a voz de Lula pingou dos lábios de Antonio Palocci, principal operador da candidatura oficial.

 O coração da campanha bateu numa sintonia com a qual o petismo não estava habituado. As velhas disputas foram ao freezer. Palocci tocou de ouvido, como se diz, com os outros dois coordenadores do comitê: o presidente do PT, José Eduardo Dutra; e o deputado José Eduardo Cardoso (PT-SP).
No instante em que a eleição escorregou para o segundo turno, Lula interveio diretamente. Foi a um par de reuniões. Reinjetou ânimo na campanha. Queixou-se de falta de emoção na propaganda. Impôs seu retorno ao vídeo. E ajustou a alça de mira, focando em FHC.

 Devagarinho, Dilma foi recuperando os votos que lhe fugiam desde setembro. Em parte pelos ajustes de sua campanha, em parte pelos desajustes do antagonista, Dilma foi ao último debate, exibido pela Globo na antevéspera da eleição, com outra cara. Rose arrumara-lhe o penteado. Lula ajeitara os índices das pesquisa.

 Só o pé parecia incomodar Dilma. Depois do câncer linfático de 2009, a candidata incluiu na sua rotina as caminhadas matinais. Em Brasília, à beira do Lago Paranoá. Nos hotéis, na esteira.

 Numa de suas viagens, Dilma entreteve-se com duas mulheres que tagarelavam ao seu lado no instante em que suava numa esteira do hotel Mofarrej, em São Paulo. Vencidos os 40 minutos de esforço que se antoimpusera, a candidata descuidou-se ao descer da máquina. Ganhou uma torção no pé direito e uma bota ortopédica.

Nos estúdios da Globo, calçou um reluzente par de sapatos pretos. Salto zero, como convinha a uma pessoa duplamente acidentada –na esteira e nas urnas do primeiro turno. A despeito dos cuidados, doía-lhe, ainda, o pé direito.

Confirmando-se as pesquisas, Dilma terá novas dores com que se preocupar. As divergências do PT serão descongeladas. Os apetites do PMDB aflorarão. Tonificados pelas urnas, partidos como o PSB exigirão nacos maiores de poder.

 De resto, Dilma descerá das asas do luxuoso Cessna Citation da campanha para o chão escorradio do cotidiano administrativo de uma presidência sem Lula. Por ora, o estilo do virtual governo Dilma só é conhecido até certo ponto. O ponto de interrogação.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Opinião: "se Deus não existe, tudo é permitido"

por Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa

Nós passamos mais da metade da campanha eleitoral debatendo um tema da maior importância, mas pelo viés errado. O aborto. Quase como se fossemos noviços em um convento sendo doutrinados sobre o que é ou não é santificado.
O que se esconde por trás dessa situação limite para qualquer mulher, isso passou ao largo porque para os políticos é mais fácil ficar no terreno espiritual do que no material.
Simone de Beauvoir, a respeito do forte pensamento de Dostoievski que abre este artigo, disse que se Deus não existe, isso não significa, como pensa o homem moderno, que tudo é permitido. Ao contrário, disse ela, sem um poder exterior, tudo é de nossa inteira responsabilidade: um deus pode perdoar, apagar, remir, mas se Deus não existe, nossos erros são inexpiáveis.
Crer ou não crer é problema muito íntimo e pessoal e não cabe a ninguém entrar nessa seara. Respeitar a fé alheia é o que se espera de cada um de nós e naturalmente, na mesma medida, das autoridades constituídas. Uma das grandes vitórias da Revolução Francesa – e olha que não foram poucas as vitórias daquele movimento – foi o estabelecimento do laicismo como política de Estado.
Fugir de tema tão espinhoso como sendo problema espiritual das mulheres é que não dá... Francamente, aí entramos no terreno do desrespeito ao eleitor. O que precisava ser debatido, a sério e a fundo, a Saúde Pública e o Planejamento Familiar, ficaram soterrados sobre quem está certo,  quem está errado.
Quer dizer, não foi tema debatido visando esclarecer o eleitor sobre quais os projetos deste ou daquele partido político; foi tema usado para agredir, xingar, caluniar, desrespeitar o outro. Uma vergonha.
Alguns hão de pensar: e daí? Falar nisso hoje, a menos de 48 horas do encontro com a urna? É. Pode ser que já esteja um pouco tarde, mas ainda tenho esperança que o eleitor pare e pense: o que é que eu quero para mim e os meus? Não precisa falar em voz alta. Pode pensar com os seus botões ou laçarotes: mas, por favor, pense bem.
Alguns analistas dizem, e eu creio nisso, que muitas pessoas ainda não estão com o voto definido, o que só será feito quase que diante da urna. Não sei se é coincidência, mas o fato é que conheço bastante eleitores nessa situação.
Aliás, uma coisa muito estranha ocorreu nesta campanha: o eleitor mais consciente, mais informado, mais atento ao noticiário e que mais se interessou pela campanha, é o que está mais confuso.
Claro está que não me refiro aos que saíram dos 20 anos marcados a ferro e fogo: esses não mudam de ideia nunca. Entra ano, sai ano, o mundo se modifica de forma espantosa e lá está ele, com o mesmo pensamento de 50 anos atrás.
Não pensem que me refiro aqui a algum partido especial. Não é nada disso. É mais aquele cidadão que tinha 20 anos nas décadas de 60/70 – esse parece que empedrou. Não muda. Se é de direita, acha que comunista come criancinha no alho e óleo, que os ateus são monstros e que ler Karl Marx é atraso de vida; se é de esquerda, hoje é um burguês refinado, cheio de criados a quem paga mal e explora diuturnamente, mas é contra o capitalismo e bate no peito a favor das políticas sociais. Desde que não sejam praticadas em sua casa...
Agora, nestas últimas horas, surgem dois movimentos um tanto ou quanto assustadores: um sentimento de revolta contra Bento XVI pelo único fato dele ter cumprido com a obrigação de qualquer líder religioso, orientar seus fiéis. Não vejo a mesma revolta quando os bispos da IURD falam... e esses são bem falantes!
É ou não é tragicômico? Passaram os últimos meses exibindo e gritando sua fé – agora que um pastor de milhões de almas falou, caem em cima dele. Sinceramente, não dá para entender.
Esquecidos estão os hepáticos que ouve e segue um líder religioso quem quer. O que fica muito bobo é o cidadão se dar ao luxo de criticar a religião do outro. Cada um na sua, façam esse favor a si mesmos.
O outro movimento, mais apavorante ainda, é esse súbito furor legislativo nas Assembléias estaduais – voltado para o tal conselho destinado a normatizar e fiscalizar a mídia. Essa é a verdadeira superbactéria – a que vai nos matar se não for erradicada no nascedouro!
Essa febre tem que ser erradicada e é urgente. Passa a ser, de hoje em diante, até que morra de inanição, a minha bandeira. Quero poder continuar a palpitar sobre meu país, meu estado, minha cidade, minha rua. E quero, sempre que possível, perguntar: de que se riem tanto nossas autoridades? Onde está a graça?

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Opinião: pesquisas já não servem de conforto

AINDA QUE o antepenúltimo Datafolha da sucessão presidencial de 2010 tenha contribuído para tranquilizar integrantes da campanha de Dilma Rousseff -entre os quais havia, na véspera, quem genuinamente esperasse por uma redução da vantagem sobre José Serra-, a atitude petista hoje em nada lembra o excesso de confiança exibido na reta final do primeiro turno.
Mesmo com o quadro de estabilidade desenhado pela pesquisa, encontra-se, entre as vozes alinhadas com o governismo, até a opinião de que o debate da Rede Globo, amanhã à noite, poderá ser "decisivo".
Sério? Com 12 pontos de diferença pelo critério de votos válidos? Uma combinação de fatores explica esse surto de cautela.
Para começar, a zona de conforto de Dilma, embora razoável se considerado o curto intervalo de três dias daqui até a votação, não se compara à de Lula na mesma altura em 2002 (28 pontos sobre Serra) ou 2006 (22 sobre Geraldo Alckmin).
Existe ainda a necessidade de manter a tropa em estado de alerta.
O triunfalismo, antes adequado ao propósito de "criar um clima" para tentar liquidar a eleição pela via rápida, agora poderia desmobilizar a militância, tantas vezes valiosa para o PT na hora decisiva.
Acrescente-se a desconfiança que paira sobre as pesquisas em consequência dos erros cometidos no primeiro turno. Ela não atinge apenas o eleitor. Introduz um permanente "e se?" também na cabeça dos operadores da política.
Os levantamentos internos da campanha de Serra apontam Dilma à frente, porém bem mais próxima do tucano. A fotografia é semelhante à do GPP, historicamente ligado ao DEM, e diferente da apresentada pelos principais institutos.
É perfeitamente possível que estes últimos estejam certos -ou menos errados-, mas a dúvida sobrevive em razão de uma "verdade inconveniente": computadas tanto pesquisas feitas para divulgação quanto para consumo interno, os números apurados pela campanha de Serra foram os que mais se aproximaram do resultado do primeiro turno; os de Dilma superestimaram por larga margem sua dianteira.
Por fim, há a peculiaridade de uma disputa em que nenhum dos dois finalistas, sem prejuízo dos milhões de votos recebidos e a receber, conseguiu empolgar o eleitor.
Isso se reflete não somente no que ainda resta de indecisos (8%, segundo o Datafolha, contra 6% no mesmo momento de 2002 e 3% quatro anos atrás) mas também em fenômenos menos quantificáveis.
Nas "quális", mediadores se impressionam com a inconsistência da defesa tanto de Dilma quanto de Serra. Não raro, participantes mudam de voto uma ou duas vezes na mesma sessão. A questão, no entender de quem acompanhou eleições anteriores, é a escassez de argumentos à disposição do eleitor.
Chama a atenção que Lula seja, até hoje, "o" atributo conferido a Dilma nos grupos. Quanto a Serra, que buscou ser aceito como "continuador", acabou confinado ao cercado que a força do presidente no eleitorado lhe impôs.
À diferença do que aconteceu nos dias anteriores ao primeiro turno, não há movimentação visível. Mas, num terreno assim pantanoso, não estranha que tenha gente enxergando jacaré embaixo da cama.

Por Renata Lo Prete

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

José Serra evita atrito com Aécio Neves nestas eleições 2010

Antes animados com o potencial de estrago do "dossiegate" na campanha de Dilma Rousseff (PT), tucanos passaram a se preocupar com o risco de cizânia interna diante do noticiário sobre o suposto envolvimento do grupo de Aécio Neves na violação de sigilo fiscal de pessoas ligadas a José Serra. "Roupa suja só se lava depois da eleição", diz um dirigente.
Para coordenadores da campanha do PSDB, qualquer sinal de estremecimento entre os dois expoentes nacionais do partido implodiria o plano de Serra de engajar o senador eleito no esforço derradeiro para atrair o eleitorado mineiro no segundo turno.

Painel

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Voto religioso evitou vitória de Dilma Rousseff no 1º turno

Por José Roberto Toledo

A pesquisa Ibope confirma que o voto religioso teve papel decisivo para evitar a vitória de Dilma Rousseff (PT) no primeiro turno, mas o efeito religião parece ser limitado nesta nova fase da campanha. A maioria dos eleitores sensíveis a essas questões já trocou de candidato.
Segundo o Ibope, Dilma teve o voto de metade dos católicos, mas de pouco mais de um terço dos evangélicos. Nesse segmento, ela empatou com José Serra (PSDB). Entre eles, Marina Silva (PV) foi melhor, chegando a um quarto dos votos.
A queda de Dilma na véspera do primeiro turno começou entre os evangélicos e depois se estendeu aos católicos. O principal motivo foi a campanha, em templos e igrejas, contra o voto nela por causa da legalização do aborto, defendida pelo PT. Segundo o Ibope, 80% dos eleitores são contra a mudança da lei.
Agora, a intenção de voto em Dilma se estabilizou tanto entre evangélicos quanto entre católicos, quando se compara com a pesquisa feita na véspera do primeiro turno: ela continua com 41% entre os primeiros, e foi de 50% para 52% entre os outros.
Mas há uma diferença fundamental: agora só restam dois candidatos. Para onde foram os eleitores religiosos de Marina Silva (PV)? Migraram, na proporção de dois para um, para Serra. Como consequência, ele cresceu em todos os segmentos religiosos, mas principalmente entre os evangélicos.
O tucano tem hoje 41% dos eleitores católicos, contra os 29% de antes do primeiro turno. Nesse segmento, que representa 61% do eleitorado nacional, ele ainda tem 11 pontos porcentuais a menos do que Dilma.
Entre os evangélicos, Serra dobrou e virou: tem agora 52% (tinha 25%), ou seja, 11 pontos porcentuais a mais do que a petista. Esse segmento é responsável por 1 em cada 5 eleitores.
Mas nem todos os eleitores de Marina são evangélicos ou católicos. Há 22% de ateus, agnósticos e de eleitores que professam outra religião. Esses racharam: partes iguais migraram para Serra e Dilma, mas ainda restam 20% de sem-candidato (indecisos e os que pretendem anular ou votar em branco).
A disputa pelo voto desses eleitores agnósticos, ateus e adeptos do espiritismo e outras religiões é a mais apertada. Dilma recuperou-se e chegou agora a 47%, contra 41% de Serra.
Para a conta da intenção de voto total fechar, é preciso levar em conta os eleitores que dizem ter votado em Dilma e Serra no primeiro turno e que, pelo menos por enquanto, trocaram de candidato. O saldo é ligeiramente favorável ao tucano.
Dos eleitores da petista no primeiro turno, 7% pularam agora para Serra. E, dos eleitores do tucano, 5% saltaram para o barco de Dilma. Isso ajuda a explicar a diminuição da diferença entre os dois candidatos.
Só eleitores evangélicos afirmam ter acatado orientação de um líder religioso para não votar em um dos candidatos (no caso, em Dilma). Dos que seguem a orientação dos pastores, não sobrou nenhum que ainda pretenda votar na petista.

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