quarta-feira, 3 de novembro de 2010

"Rousseff não deveria simplesmente copiar Lula", dizem analistas alemães

Dilma Rousseff, a primeira mulher eleita presidente do Brasil, tem um grande exemplo a seguir. Seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, foi chamado de "o político mais popular da terra". Mas comentaristas alemães dizem que ela terá de sair da sombra de Lula, mais cedo ou mais tarde.
No domingo, os eleitores brasileiros escolheram Dilma Rousseff para suceder o líder extremamente popular que nos últimos anos conseguiu reduzir a lacuna entre ricos e pobres e dar um reforço à classe média.
Mas resta ver quão fiel a primeira mulher eleita presidente do Brasil será ao caminho de Lula. Filha de imigrantes búlgaros, Rousseff é considerada muito mais prática que Lula. Ela disse à imprensa internacional, no rastro da campanha às vezes contenciosa, que queria "ser a presidente de todos os brasileiros".
Aos 62 anos, Rousseff é uma ex-guerrilheira marxista que ascendeu para se tornar ministra da Energia e chefe de gabinete de Lula; este não poderia disputar um terceiro mandato consecutivo devido à legislação eleitoral. Ela deverá integrar o Brasil ainda mais à América do Sul e a outros países em desenvolvimento e manter o recuo do país em relação à Europa e aos EUA. Mas ainda é uma relativa desconhecida para observadores externos.
Os editorialistas alemães ponderaram como seria realmente uma presidência Rousseff, e vários encorajaram a líder recém-eleita a seguir as pegadas do homem que o presidente Barack Obama chamou de "o político mais popular da terra".
O jornal "Süddeutsche Zeitung", de centro-esquerda, escreveu:
"Agora o futuro do Brasil se chama Dilma Rousseff. Ela deverá continuar o que [Lula] realizou. Lula é provavelmente um dos chefes de Estado mais populares do planeta, mas um terceiro mandato é proibido pela Constituição... Lula está deixando um legado incrível: a outrora indolente nação gigante se transformou em uma democracia estável e em um membro dos chamados países Bric: Brasil, Rússia, Índia e China."
"Rousseff não deveria apenas copiar Lula. A filha de imigrantes búlgaros age com timidez, mas personifica muito do que constitui a nova política na região. É mais uma ex-adversária de uma ditadura que chegou ao palácio presidencial através da esquerda moderada. O Brasil vai sentir falta do carisma de Lula, mas talvez possa usar alguma circunspecção feminina."
O conservador "Frankfurter Allgemeine Zeitung" escreveu:
"Uma das perguntas mais fascinantes na política brasileira será se e quando Rousseff vai sair das sombras de seu antecessor. Ela deveria manter os princípios básicos das políticas de Lula de uma economia de livre mercado, assim como Lula manteve as políticas bem-sucedidas de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, em 2002. Deve-se reconhecer que a enorme receita gerada pela grande demanda da Ásia por matérias-primas, e o resultante crescimento econômico, foi dirigida para os canais certos."
"Uma página ainda não escrita é o papel de Rousseff como estadista. Nessa área, o Brasil também foi catapultado quase da noite para o dia ao século 21. Tornou-se uma potência regional com ambições políticas globais."
"Desde o primeiro dia, a mulher no comando do Brasil será observada pelo público mundial, e seu mentor Lula já assinalou que não a perderá de vista. É muito possível que em 2014 ele mesmo concorra novamente à presidência."
O diário econômico "Financial Times Deutschland" escreveu:
"Não há dúvida: o Brasil teve um desenvolvimento impressionante durante o governo Lula. A economia crescerá 7% este ano, a pobreza diminuiu e a inflação e a dívida nacional estão sob controle. O Brasil quer ser uma das cinco maiores economias globais até 2020. No caminho, porém, há desafios tão enormes que não podem ser enfrentados simplesmente mantendo-se as políticas estabelecidas. Mesmo que não tenha sido eleita para implementar reformas inovadoras, Rousseff não tem opção senão introduzir essas mudanças."
"Rousseff indicou que vai abordar as muito adiadas reformas do sistema fiscal ineficiente e praticar a disciplina orçamentária. Ela precisa aplicar os freios aos gastos públicos, sem sufocar o crescimento. Mas isso não bastará para manter a economia brasileira vigorosa em longo prazo. Rousseff precisa tornar o Brasil independente de suas matérias-primas e reforçar a exportação de produtos industrializados."
O "Die Tageszeitung", de esquerda, escreveu:
"Sob a liderança do Brasil, a América do Sul começa a se libertar de sua dependência neocolonial dos EUA e da Europa. A eleição de José Serra (o adversário centrista de Rousseff) teria sido um grande revés nesse caminho. Portanto, o sucesso de Rousseff também é uma vitória para os esquerdistas de mentalidade internacional em todo o mundo."
"Muitos na mídia ocidental estão céticos. O semanário 'The Economist', de Londres, que elogiou e idolatrou Lula durante anos, se manifestou antes das eleições explicitamente a favor de Serra. E 'Spiegel Online' espera sob Rousseff 'um país sem esplendor', e escreveu: 'A nova potência mundial vacila'."
"Rousseff faria bem em seguir o rumo independente e confiante de Lula, já que o atual presidente deixa o cargo com índices de aprovação recordes como o chefe de Estado mais popular em décadas."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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